Interfases

efervescências humanas na arte e na poesis

Astrolábio

Um fantasma percorre a web

por Claudio Barría Mancilla
Da edição

Funes lembrava de tudo. “Recordava cada folha de cada árvore de cada monte“. Registrava detalhes e mais detalhes, mas tinha muita dificuldade em compreender, por exemplo, que cão é mais que uma palavra que remete a uma coisa. É um símbolo que abarca uma variedade enorme de cachorros de diversos tamanhos, cores e formas. Funes sofria muito. Não conseguia pensar, pois pensar, nos lembra Borges nesse conto, demanda a capacidade de abstrair.”

Estamos chegando à nossa vigésima edição surpresos com a própria trajetória e os desdobramentos dessa rede que hoje somos. De fato, “nós, os de antes, não somos mais os mesmos“… e é que, de repente, não mais que de repente, somos mais de uma centena de milhares!

…é sério isso!

Estamos felizes de perceber que a força da utopia realizável à que um dia apostamos foi muito além do i maginado.

Mas o que Funes tem à ver com isso tudo?

 

Sobre o sentido de ser brinquedo de navegar

Hoje, a World Wide Web (Teia Mundial, na tradução literal) possui uma quantidade incalculável de dados que supera já os 500 bilhões de sites indexados (isso contando cada rede social – como Facebook ou Twitter – como um (01) único site, e não incluindo a chamada deep web).  É de fato, e há muito, o maior arquivo jamais criado pela humanidade.  A artista, pesquisadora e curadora Gisselle Beiguelman comparou a internet de hoje a Funes, o memorioso, triste personagem do escritor argentino J. L. Borges.

Essa realidade impacta direta e profundamente a Educação, a comunicação humana, a produção e transmissão de conhecimentos.  O ponto é: Dados precisam ser transformados em informação e informação em conteúdo significante, conhecimento que se articula com a vida de pessoas e coletivos e com os sentidos que partilhamos.  Essa é a grande função da mediação na internet, e se bem todo o anterior (armazenamento e disponibilização de dados, mecanismos de busca, referenciamento, indexação e mesmo a definição de relevâncias), sejam tarefas hoje automatizadas por meio de complexos algoritmos que reorganizam e entrelaçam plataformas na WEB, esta última tarefa, a da mediação, é exclusiva e essencialmente humana, como aponta Beiguelman, em seu artigo “Curadoria de Conteúdo é o lugar do humano na internet”.

A mediação é da ordem do humano, pois requer a articulação de vivências e sentidos produzidos na relação dos sujeitos e coletivos com o mundo, com seus fazeres criativos, simbólicos, sociais e políticos, no seu modo de projetar e negociar subjetividades.  São elas que têm se demonstrado altamente potentes.  Para realizar essa tarefa é preciso entender que a chamada rede mundial de computadores é, antes de nada, uma rede mundial de pessoas e coletivos que se conectam e interagem ‘a través’ de computadores e outros meios digitais hoje disponíveis (tablets, celulares, relógios e um enorme etc. que começa a invadir nosso cotidiano e abre campo à chamada internet das coisas). Isto não é o nosso futuro, é o nosso presente, mesmo para aqueles que não são usuários assíduos ou entendem-se fora do mundo digital.

É nesse contexto que se insere o Astrolábio, como instrumento que articula – a partir dos nossos princípios, valores e relações – enriquecedoras experiências locais à multidão, sem subsumir, mas redefinindo modos e sentidos, costurando, em tempo real, uma cartografia constante de fazeres que, assim, se entrelaçam.  E isso porque os usuários do Astrolábio não são apenas leitores, curiosos navegantes, mas também criadores, sujeitos articulados aos seus coletivos em diversos espaços locais que se interpolam e trocam;

Assim, quando falamos que o Astrolábio é um nó articulador de redes de sujeitos e coletivos que produzem cultura, não estamos apenas na ordem dos meios de comunicação, como seria antigamente uma revista institucional, por exemplo, nem na do Marketing, no seu sentido tradicional, que busca um meio que amplie o alcance e impacto de peças de divulgação para venda de produtos ou serviços.  É também isso, com certeza, toda vez que a inserção na multidão como mediador de conteúdo constitui hoje o mais caro mecanismo de legitimação de marcas no caos de dados que seria a web sem indexação e lugares de referência.  Achar-se e ser achado nesse mar turbulento onde todos navegam é ter uma vantagem comparativa incalculável.

Mas não é apenas isso. Vai além, como instrumento que permite reforçar um tecido esgarçado pela fragmentação das práticas e dos coletivos em suas pequenas lutas por construir um mundo melhor a partir do encontro e da memória do comum.  Eis sua força política, que não busca ser apenas espelho da nossa pretensa potência, mas que só é enquanto está sendo entrelaço de muitas trajetórias de fazeres e sentidos articulados pelo encontro que ele propicia. O Astrolábio é, como pensando desde o início, nós no mundo, e o mundo em nós, entrelaçados em redes de cooperação, colaboração e interação criativa.

E é que o Astrolábio se propõe a ser um agenciador de uma rede de co-elaboração de sentidos éticos e estéticos desde o mais profundo do Brasil e da Nossa América, isto é, desde a nossa contemporaneidade ancestral.  É esta nossa utopia realizável.

Ao lançarmos o novo Astrolábio queremos dar uma especie de abraço de agradecimento a todas e todos que participam, de um modo ou outro, dessa já enorme rede, como produtores de conteúdo, articuladores de coletivos, curadores de artigos achados na rede ou como editores, revisores, leitores ou partilhadores. #SomosTodosAstrolábio

O Astrolábio é um olhar que acha seus afetos,
olhar que reflete a imagem de quem o vê
e assim, através dele vê e encontra,
o Astrolábio, brinquedo de navegar sem perder o Sul,
é instrumento de navegar juntos (e é preciso)
sempre co-elaborado por todos que o alimentam
curadoria estético-afetiva de conteúdos partilhados,
cartografia da alma do Brasil e da nossa América profunda
é livre, aberto e gratuito,
como o cheiro da brisa à beira mar,
como a alegria inexplicável de uma andorinha que volta,
como a curiosidade incansável dos felinos.
é lugar de achados e cuidados.
arte, educação, cultura popular,
criatividade humana,
cartografias do poético, memória viva,
aprendizado da partilha e outras belezuras
ele é ferramenta especial para aqueles que sabem
ou estão envolvidos pela paixão de aprender a ver
e nele podem achar, mixar ou publicar conteúdos
é um tecido com-fiado
que tem a arte como poiesis e a educação como Política,
é um Tear

Veja as mudanças no Astrolábio