maria e anaclara na janela (1)

Criança e Natureza

Observações (d)e Natureza Lúdica

pequenos

por Lais Lavinas

Quanto mais observo as crianças, mais compreendo a essência da natureza humana. Em meus últimos meses nunca convivi tão próxima às crianças – desde que eu era uma. Elas estão presentes em meu cotidiano, em meu entorno, no meu mundo; ao alcance dos meus olhos e ouvidos; trazendo seus cheiros, seus sons, suas demandas, seus pensamentos, seus erros, suas sabedorias – elas trazem o ser humano até mim. O tempo todo e a todo tempo. Simplesmente integram minha vida e minha mente em boa parte de meu presente, elas me demandam muito tempo. E eu as e
ntrego tudo o que posso com todo o carinho e felicidade que tenho – meu tempo também é delas.

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Ao escolher entregar meu foco às crianças da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, me peguei a observar e refletir sobre as seguintes questões: o tempo criativo humano, o autoconhecimento, o presente, a essência natural lúdica, a ocupação do espaço, o amor pela liberdade e a liberdade pelo amor. Esses assuntos me retornam mentalmente sempre que vou refletir sobre a dinâmica de cotidiano lúdico da Casa Azul; as razões que os trazem é o que busco compreender.

Nessas observações sobre o cotidiano lúdico percebo que a ludicidade não se prende a um espaço temporal da existência humana, ela está em qualquer idade, em qualquer período da vida. Não é exclusividade das crianças, e não pertence somente à infância; ela se faz presente nos ambientes e espaços por que passa. Há lugares que materializam a ludicidade e, assim, a atraem e solidificam seu encantamento natural. Um encanto que se faz genuíno, originário, natural, selvagem e verdadeiro.

Observar o lúdico é enxergar as origens dos processos de aprendizado criativo, é ver a ancestralidade da intuição, a gene da naturalidade espontânea do humano. Ao assistir ao filme “Território do Brincar”, de David Reeks e Renata Meirelles, enxergava em suas cenas a mesma essência que vejo no cotidiano lúdico da Casa Azul –  o despertar do aprendizado pelo interesse intuitivo e afetivo da brincadeira; a compreensão do mundo pela sua (re)criação, e esta movida pelo interesse afetivo e pelo desbravamento intuitivo da criatividade.

Movimento muito próximo ao da natureza e dos animais. A vida se recria o tempo todo, a cada momento de uma maneira, sempre inovando na forma de se (re)viver, contudo, em conexão com sua essência físico-química originária. Se os espaços e as circunstâncias são efêmeros (pois estão se transformando), a inovação (ou como preferem os geneticistas, a mutação) deve se fazer constante para viabilizar a vida. E o cotidiano lúdico me mostra que a inovação é sua essência, e por isso, percebo a força de sua ancestralidade natural.

Se refletirmos sobre a manutenção da dinâmica da brincadeira após às infâncias dos animais, percebemos que os bichos não param de brincar enquanto envelhecem; o passar do tempo pode fazer com que o brincar seja menos presente, porém, dificilmente ele cessa. Provavelmente o ser humano é o único animal que reprime o brincar após a infância, o que contribui para o distanciamento do lúdico nos processos de aprendizado (criativo). Então, se o lúdico é social(mente) reprimido, também reprimi-se um potencial naturalmente inovador.

A repressão de um potencial natural não faz social (mente) nenhum tipo de sentido, com exceção das perspectivas de degeneração humana, sejam elas econômicas, políticas, culturais, psicossociais e/ou ambientais; ou talvez faça completo sentido em nosso tempo atual – como bem mostra a animação “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu. É curioso perceber que em um tempo em que se fala muito em criatividade, inovação de pensamento e transformações socioculturais, ainda pouco se discute sobre o lúdico, sobre a espontaneidade da criação, sobre a naturalidade da intuição criativa.

É preciso resgatar o respeito pelo lúdico; em nosso atual tempo até nossas crianças perderam parte do respeito por ele, provavelmente porque seus tempos andam mais controlados e suas asas mais presas. Assim como a maior parte dos adultos e dos idosos, as crianças estão cada vez mais presas ao tempo executivo e afastadas de seus tempos criativos. Nós estamos – cada vez mais – nos afastando da nossa essência naturalmente lúdica, e assim, se distanciando de nós mesmos e da nossa ancestralidade criativa. A sorte é que, assim como a natureza, a ludicidade possui uma força de renovação incrível, e ela consegue se manter presente mesmo em contextos de alto autoritarismo executor.

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Adentrar o território da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri entregue ao cotidiano do lúdico me fez compreender a importância do autoconhecimento e da liberdade pelo amor, em que um alimenta o outro ciclicamente. O poder de provocação do lúdico em nossas limitações psicossociais e cognitivas é forte, nos testa o tempo todo, aguça os sentidos e a intuição; o que faz com que sejamos menos moralmente formados, mais flexíveis diante dos controles sociais de comportamento, e mais próximos aos processos de natureza espontânea. Ou seja, ficamos mais próximos à nossa essência naturalmente criativa, pois estamos mais sensíveis à criação espontânea.

O que não significa sermos bonzinhos, inocentes, incapazes e perdidos – como muitas vezes o lúdico é visto ao ser confundido com a infantilização – significa sermos mais desprendidos de controle organizacional espacial, mais adeptos aos processos de (cria)tividade – o que requer uma perspectiva de organização temporal mais complexa e socialmente refinada para que haja harmonia e não falta de respeito. É preciso confiar no tempo criativo do outro, algo muito comum às crianças; que confiam com facilidade na capacidade de invenção e articulação do outro, o que contribui para a simplicidade em desenvolver ações coletivas.

O lúdico ao mesmo tempo que confia no aprendizado do outro e o observa, também se dispõe a complementá-lo e/ou trocar informações. É muito natural e simples a forma e a velocidade com que as crianças conseguem alternar entre o olhar aprendiz e o de aprendizado-orientador, entre o que é incorporado e o que é transmitido; o compartilhar das informações é genuíno, verdadeiro, sincero, mesmo que não seja fácil ou doce. Essa perspicácia de alternância do olhar provoca constantes situações de compreensão de perspectiva, o que contribui para o crescimento da empatia e do questionamento crítico interior; ou seja, estimula o autoconhecimento. O estímulo ao autoconhecimento aumenta o senso de liberdade. Já a confiança no outro favorece o florescimento da amizade, do cuidado, do carinho, do respeito. Então, o vínculo do compromisso se faz pelo afeto e pelo cuidado, e não apenas pela sustentabilidade de algo.  O autoconhecimento alimenta o amor ao próximo, que permite a liberdade individual e o respeito social ao outro.

Ao observar o cotidiano lúdico percebo que a ludicidade é um tipo de estado de espírito – mais presente entre as crianças – que pode ser estimulado através da ocupação do espaço e do respeito ao tempo criativo. O brincar permite o alcance de um estado de espírito de renovação (senti)mental e energética, em que a psique passa por processos de cura traumática. Isso ocorre por conta da força de ativação da memória que os momentos de interesse, diversão e criatividade contidos no brincar possuem. Força essa que em boa parte dos casos consegue ser superior a dos traumas corriqueiros. Ou seja, o brincar chama e cria fortes memórias sociais baseadas em sensações de leveza, concentração, espontaneidade, criação, vitalidade, comunicação, experimentação, intuição, aguçamento dos sentidos e descobrimento corpóreo. Portanto, quanto mais se brinca, mais se aprofunda e enraíza as conexões de autoconhecimento e intelecto-sociais.

Para esta reflexão, creio que seja interessante descrever algumas características ambientais do espaço sociocultural que envolve o cotidiano lúdico da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri. A ludicidade chega ao espaço pela comunicação, pela linguagem e pela troca de experiência entre as pessoas; e assim, se concretiza em cores, música, brincadeiras, arquitetura, afetos, leituras, fotografias, vídeos, trilhas sonoras, programas de rádio, espetáculos, passeios, narrativas histórico-culturais, gibis, artefatos arqueológicos, comidas e eventos.

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As demandas energéticas de aprendizado direcionam-se para dois tipos de foco: o primeiro é a pesquisa e a absorção de conteúdo; e o segundo é a (con)vivência entre as gerações de pessoas. A estrutura laboratorial e o repertório de conteúdo foram pensados para atrair e estimular a comunicação lúdica; suas linguagens são simples e esteticamente atraentes, em que o aprendiz tem a liberdade temporal de usufruir dos lugares. Lugares, estes, que são habitados por outros aprendizes dispostos a também serem orientadores. Assim, através da comunicação lúdica e o compartilhamento dos lugares, os moradores vão compreendendo o desenvolvimento do tempo criativo humano, e são provocados a refletir sobre si mesmos e o tempo de criação do outro – o que favorece o crescimento da empatia e do espírito lúdico no espaço.

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Quanto mais a ludicidade cresce no espaço, mais o tempo criativo se faz presente e liberta a intuição e a sensibilidade humana; processos mais profundos de autoconhecimento ocorrem e espontaneamente nasce o equilíbrio cria-ativo – entre o criar e o executar.  E assim, os moradores da Casa Azul vão (re)descobrindo seus interesses, vão (re)criando seus lugares socioculturais, naturalmente se (auto)desenvolvendo; e fazem tudo isso juntos, misturando seus sonhos e aprendizados com o território que compartilham, elaborando processos coletivos a partir do respeito e a união dos tempos criativos individuais. Eles buscam a harmonia entre os tempos criativos do indivíduo e do coletivo para construir o tempo social do território.

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