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O Processo – Fio e Feminino

Bordô, grafiteira e arte educadora do Tear, fala de seu processo criativo e de sua experiência na companhia cirandeira.

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Por Gabriela Macena

A minha trajetória no Tear começa em 2006, com 16 anos, em uma turma de dança e teatro, os brincantes da Cia Cirandeira. No ano de 2008, iniciamos a montagem do espetáculo Marias Brasilianas: a arte do fio. O processo de criação foi um espaço para tessitura das histórias da nossa vida. Jovens fiando, através das linguagens da arte, suas descobertas pessoais através do fio poético que o universo das fiandeiras nos permitiu.

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O elo que tecemos nessa experiência costurava nossas singularidades e encorpava nossos fios para construção da renda da nossa própria vida. Nesse processo, o apreço pela linguagem das artes plásticas embolou com o desejo de dançar profissionalmente. No vestibular, a decisão foi desembolada no último momento: as duas provas de habilidade específica eram no mesmo dia e hora, eu tinha um lápis na bolsa. Escolhi fiar com a ponta dos dedos na Escola de Belas Artes da UFRJ.

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Marias Brasilianas - Mulheres de Berilo

Marias Brasilianas - Filezeiras

Marias Brasilianas

No Tear, enquanto coautora deste espetáculo, pude bordar meus próprios tecidos, fiar os fios que gostaria de viver ao lado de amigos e mestres para uma vida inteira. O que conquistei de mais valioso nesse processo, foi a autonomia para plantar, zelar, colher e fiar a minha história. Em um processo tão íntimo, o fio e a mulher ganharam protagonismo no meu fazer artístico. O sagrado dessas mulheres é o trabalho, a casa, o corpo. A produção, o bordado, o fio da fiandeira, a renda ou o espetáculo, são a materialização deste processo de vida. Hoje este processo é o rio que perpassa minhas memórias e me diz onde buscar beleza e ar puro. É o próprio fio da vida.

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Marias Brasilianas

Numa investigação do próprio sagrado, os cabelos tomaram destaque como um elemento de representatividade da liberdade, ancestralidade, raiz do feminino que buscava. Ultimamente, a pesquisa voltada ao feminino, dialoga com a violência e o desejo de relacionar-se com outras esferas sociais, independente de gênero, de forma menos violenta. Afetar o íntimo com os arquétipos do feminino, de modo que sintonize-vibre-equalize com a natureza e a liberdade poética na transmutação dos próprios mistérios. Quanto aos arquétipos transformados em imagem, a mulher está simbolizada enquanto círculo, o íntimo, lua, maré e ciclo, além dos atos transBordar, afetar, envolver, conFiar.

O feminino sagrado, natural a todos os seres

Através do curso Afrografiteiras, oferecido pela Rede Nami, o desafio é levar esta mulher para a rua e estampar os muros da cidade, com a proposta de diálogo direto a negação do íntimo, reclusão do corpo feminino e a legitimar, aceitar e respeitar este corpo no contexto urbano. Com a montagem da  exposição coletiva Afrografiteiras, vou apresentar  a primeira síntese estética deste processo longo de maturação deste corpo feminino. No caso, a mulher enquanto símbolo na representação deste feminino, meu próprio corpo e seus mistérios com o natural.

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O projeto “Meu falar transBorda” tem por pretensão a criação de cinco telas em tamanhos diferentes, que será exposto na Galeria RioScenarium em uma exposição coletiva, idealizada/organizada/assessorada pelo projeto Afrografiteiras, coordenado pela Rede Nami. Onde o protagonismo da mulher negra está associado à luta da mulher livre da violência doméstica. As primeiras ideias do projeto surgiram a partir do verbo falar. A palavra-ação dirigiu o pensamento a questão: Como a mulher fala?

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_MG_9620 (1)Em contraponto ao instrumento da palavra que os homens têm, o próprio falo. Sendo assim, a pesquisa segue um caminho onde a fala da mulher é o seu corpo. Não como instrumento que aponta ou endurece, a fala feminina como algo que circunda o corpo, algo que agrega, que tem toque suave e abraça. Falar e gerar, como palavras-ação da construção do percurso artístico-afetivo do trabalho, sendo o fio o símbolo deste processo. Sendo representado no risco e no bordado transBordado em tela.

Meu pseudônimo é Bordô, um dos tons escuros da matiz do vermelho. Tendo o vermelho grande representatividade no universo feminino, relacionado aos ciclos de sangramento e renovação.

O fio e o corpo feminino são os principais símbolos na pesquisa. O fio é a representação física do que contorna e envolve ao encontro da palavra, ou o que está sendo chamado de palavra-ação, FALAR, GERAR, ENVOLVER. Porém quando fura a tela em agulha, relaciona-se com a retidão e lisura, para além da penetração, encontradas no objeto relacional da pesquisa, o falo. A princípio a leitura é de um corpo feminino dócil e passivo, mas visto em sua potência de contração para a expansão. Reconhecido em uma qualidade de movimento circular. Onde encontra a força de oposição ou equilíbrio no que é ereto. Palavras-ação do corpo feminino: falar, gerar, envolver, circular, fio. Que se relacionam com o masculino, e suas qualidades referenciadas: cortar, endurecer, erguer, apontar, furar.

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Afrografiteiras

Se interessou pela trajetória da Bordô? O Tear abre espaço para jovens desenvolverem seus trabalhos artísticos. Conheça nossa produção cultural e o Tribo Arte, nosso curso gratuito destinado aos jovens.

Link da página: http://institutotear.org.br/3813